01.20.08

Segunda Carta — A Vida dos Mortos

Enviado em Sombras às 10:34 pm por Magno Rocha

Magno Rocha

O que lhe causava surpresa não era o fato de doerem-lhe as suas úmidas unhas; não era o azedume sob a língua nem mesmo os pontiagudos dardos que pareciam entrar-lhe pelos ouvidos; o que lhe causava surpresa, medo, pânico o bastante para sequer abrir os olhos era a sensação de que, ao abri-los, perceberia que não reconheceria o lugar onde estava. Saberia que estaria totalmente perdido, sozinho, órfão e, pelos sons e demais sentidos, pesaria o como pôde ser, novamente, incoerente com a sua vida, com a sua fé…

A mansidão das tempestades-sons pela noite-reflexão ferve-lhe o sangue às chagas. Seus discípulos dormem.

Tendia por uma lágrima, uma gota que libertasse sua vida para o próximo passo mais puro, humilde, simples. Nada desce aos olhos além do alvorecer do tormento profetizado. Abriria seu peito e retiraria com suas próprias garras a peste que lhe devorava, mas sabia — e por isso sofria mais e mais — que o seu mal estava preso à sua vida e tal não poderia ser retirado. A solução estava no conviver, no sobreviver, no viver além do além, aquém de parte de si mesmo, à dor transportada, sacra, pelas veias.

Aspirava ao sono, à calma aos ossos doloridos, ao refrigério à alma enlameada por medos sobrenaturais: vida/morte eterna. O angélico sono, distante, ria e fugia de suas vistas. Abriria os olhos? O que o tempo escondia entre suas patas emplumadas era uma dúvida; mais dúvidas ao peito lanceado.

Não se recordava de nada do dia anterior. Não se recordava de nada para o dia seguinte. Estava no lugar certo. Sentia o que lhe era cabido: o cheiro do sangue a fugir de sua coroa.

Apreendia a crença de que quanto mais “forte” o modo de viver, o modo de portar-se, o modo de caminhar sobre as pedras, areias e espinhos, maior a dor no seio imperativo. Uma dor que não tem nome, idade, destino, rota, nascente. A dor apenas aperta o coração, prende o sangue, sufoca, esmaga, humilha. A dor que faz o homem um pedinte por um minuto de descanso e paz para a retomada de suas energias. Mas o que é para ferir não ouve, não fala, não responde/corresponde a pedido algum. “O que não teve nascimento, ou melhor, o que nasceu de si mesmo é para a total mortificação dos corpos universais.”, gemia ao lodo.

Sustentava sua própria carne, ergue-se aos poucos. Mantém a visão fugitiva às sombras internas ao seu torpor/irracionalidade daquele instante. Sente o ar corrente. Saíra do abrigo desconhecido, saíra do sepulcro de seus deveres. Caminhará para o todo sempre entre os pensadores em dias de vida reais e distantes às leis desumanas, descarnadas… Ressuscitaria.

 

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